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maio 10, 2007

SOBRE A COMUNICAÇÃO

Na base da comunicação está a interacção directa entre dois indivíduos que não pode NUNCA reduzir-se à simples transmissão de uma mensagem.Comunicação
“No horizonte da Comunicação aparece não apenas a compreensão, mas a não compreensão. Quanto mais comunicação existe mais ela é mediatizada pela tecnologia. Quanto maior é o nº de técnicas de comunicação de que dispomos, que aproximam, que encurtam o espaço e o tempo, maior é a nossa ilusão de conhecimento.
É importante lembrar que comunicar não é gerir as semelhanças mas gerir o que nos separa.”

SOBRE A COMUNICAÇÂO

I - Uma comunicação eficaz só é possível se algo de comum existe já no conhecido ou no "vivido" dos elementos que participam num determinado processo de comunicação. Introdução
A Bases da Comunicabilidade
Uma comunicação eficaz só é possível se algo de comum existe já no conhecido ou no "vivido" dos elementos que participam num determinado processo de comunicação. Por outras palavras, a ausência absoluta de elementos comuns nas experiências dos indivíduos coloca os numa situação de relativa incomunicabilidade e se têm pouco de comum entre si, as suas possibilidades de comunicação são proporcionalmente limitadas.
As diferenças individuais - as de ordem psicológica e, sobretudo, as de natureza sociocultural - são habitualmente apontadas como as grandes responsáveis pela redução dessa plataforma comum que é a base da comunicabilidade humana. E a verdade é que entre dois indivíduos, ainda que partilhem a mesma cultura e se exprimam no mesmo idioma, há necessariamente algumas diferenças limitadoras da compreensão recíproca: na quantidade e qualidade dos conhecimentos, nas representações do mundo físico e social, nos quadros de referência, nos valores, etc.
Estas diferenças podem, em casos extremos, gerar uma autêntica incompatibilidade de esquemas, que faz da comunicação um "diálogo de surdos". E não se pense que se põe aqui apenas uma hipótese académica: as discussões alimentadas pela oposição de credos (ideológicos ou científicos) ou de paixões (religiosas, políticas ou clubistas) constituem exemplos elucidativos desse obstáculo a uma comunicação eficaz. Outras dificuldades, porém, têm origem nas características do código utilizado. A própria linguagem verbal, sendo um código altamente elaborado e convencionalizado, possui algumas limitações semânticas (por exemplo, certos estados emocionais são difíceis de exprimir por palavras). Mas os riscos de ambiguidade aumentam quando a comunicação se faz predominantemente através de formas menos estruturadas e convencionalizadas de comunicação não verbal, como é o caso da linguagem do corpo.
A comunicação recíproca contingente é, porém, a essência da interacção social. Só há interacção na medida em que os participantes trocam entre si mensagens significativas, de tal modo que o comportamento de um depende sempre (em parte) do comportamento anterior do outro e influencia o seu comportamento subsequente. Como vimos anteriormente, os comportamentos humanos só podem ser portadores de significado na medida em que existir um código, isto é, um corpo de regras que sirva para os seleccionar e organizar e interpretar.
Quando se aborda este tema, é natural que se pense imediatamente na linguagem. A própria psicologia tem dedicado particular atenção ao estudo dos códigos linguísticos (linguagem verbal) e paralinguísticos (apoios, substitutos e auxiliares da linguagem), o que deu, até, origem à constituição de disciplinas autónomas como são a psicolinguística (processos psicológicos subjacentes ao uso da língua) e a psicologia social da linguagem (comportamentos do sujeito falante), a par da psicologia da comunicação não verbal (em que se destaca a linguagem do corpo). Os códigos linguísticos e paralinguísticos são, porém, apenas dois exemplos de códigos lógicos, que são utilizados para significar a experiência objectiva e a relação do homem com o mundo (Guiraud, 1973). A este grupo pertencem também dois outros tipos de códigos, de muita importância individual e social porque têm por função, respectivamente, representar a própria realidade (códigos epistemológicos) e coordenar as acções das pessoas (códigos práticos). Pertencem à primeira categoria (códigos epistemológicos) os códigos científicos, altamente convencionais e restritivos, rigorosos e claros. Mas desempenham também a mesma função de representar a realidade, as mânticas, que incluem artes de adivinhação e meios de comunicar com os deuses, o além e o destino (Guiraud, 1973), e de que são exemplos a astrologia, a quiromancia, a oniromancia, a cartomancia, etc. Note se que alguns destes códigos, originariamente ligados ao "pensamento primitivo", têm evoluído no sentido de se aproximarem de códigos científicos.
Quanto aos códigos práticos, que se incluem ainda no grande grupo dos códigos lógicos, servem para transmitir injunções, intenções, avisos, ordens, etc., com o objectivo de orientar os comportamentos individuais. São constituídos por signos e programas em diversos suportes materiais (luz, cor, som, imagem), como pode verificar se em numerosos exemplos conhecidos: códigos de circulação (rodoviária, ferroviária, marítima, aérea), sinais de alarme, toques de clarim ou repique de sinos (com significados diversos).
O que une os diferentes códigos lógicos é a sua função de transmitir informação sobre a realidade exterior, percebida e racionalizada em sistemas de relações. Opõem-se-lhes os códigos estéticos, cuja função é comunicar a experiência interior do indivíduo perante a mesma realidade. Inclui se aqui não apenas a experiência estética em sentido estrito, mas tudo o que o ser humano pode sentir quando é afectado pela realidade física ou social (sentimentos e emoções em geral).
Os signos que constituem os códigos estéticos não são digitais, arbitrários e homológicos como sucede nos códigos lógicos; são, ao contrário, icónicos, motivados e analógicos. Sendo imagens da realidade ou exprimindo estados do sujeito, estes signos não podem ser inteiramente convencionalizados, e frequentemente escapam mesmo completamente a qualquer convenção. O observador interpreta os precisamente pela sua analogia com a realidade a que porventura se referem ou com os estados interiores que em si próprio originam expressões idênticas. O risco de erro é, por isso, maior do que nos códigos lógicos.
Na categoria de códigos estéticos incluem se não só todas as artes, mas também os comportamentos afectivos em geral, e ainda as simbólicas ou códigos de símbolos. Numa obra de arte, a realidade é por vezes representada com bastante evidência, impondo ao observador uma 1ógica de interpretação; em muitos casos, porém, ela pode suscitar no observador um estado emocional bem diferente do que experimentou o artista ao realizá la, tanto mais que se trata provavelmente de uma vivência não comum. As expressões de estados afectivos de que todos têm experiência são, naturalmente, mais fáceis de interpretar por analogia, e mais ainda quando assumem formas institucionalizadas que as aproximam dos códigos lógicos. De mais difícil interpretação são os símbolos, que no entanto abundam nos sonhos, nos mitos, nos ritos, nos contos populares.
As informações veiculadas através dos códigos lógicos ou dos códigos estéticos têm a ver com as relações do ser humano com o meio ambiente: - ou se referem ao modo como o indivíduo vê a natureza (no 1° caso), ou ao impacto da natureza sobre o indivíduo (no 2° caso). Existe ainda um terceiro grupo de códigos cuja função é transmitir informação sobre as relações dos seres humanos entre si, e que por isso são denominados códigos sociais.
Os signos sociais são muito numerosos e diversificados, apresentando se ora isolados ora agrupados em sistemas (códigos) mais ou menos complexos. Há signos que servem para identificar pessoas (indicando uma qualidade pessoal ou um grupo de pertença), e por isso se chamam signos de identidade. Incluem se nesta categoria bandeiras, brasões e totens, uniformes, insígnias e condecorações, marcas de fábrica e apelidos de família.
Há também signos de cortesia, aos quais compete informar sobre certas circunstancias da relação. Esta categoria de signos sociais abrange expressões verbais (saudações e outras fórmulas de cortesia, injúrias), comportamentos paralinguísticos (tom de voz, gesto, mímica), e ainda o uso significativo do espaço e do tempo (distância entre os interlocutores, demora em responder, etc.). Note se, por fim, que existem inúmeras oportunidades de usar outros signos de cortesia: por exemplo, no comportamento alimentar, na habitação e no mobiliário, no dar e receber presentes, etc.
Nas relações entre si, as pessoas utilizam frequentemente sistemas de signos sociais, isto é, códigos sociais, por vezes bastante complexos. Exemplos típicos (até pela rigidez e complexidade da gramática) são os protocolos e as etiquetas; mas também pertencem a esta classe de códigos os ritos, as modas e os jogos.
Definição dos Modelos e Conceitos de Base
A Comunicação humana enquanto processo
A natureza da comunicação humana
Modelo Telegráfico e Orquestral da Comunicação
Se o mundo foi dominado até a meados deste século pela problemática da energia, é também verdade que, desde aí, a comunicação tem sido o campo onde se têm operado os desenvolvimentos mais críticos de tal forma que, hoje, esta é uma das áreas primordiais de investimento, tanto em termos sócio económicos, como em termos pessoais, ou melhor, interpessoais.
Este facto fez naturalmente com que o termos comunicação se tenha tornado num lugar comum onde cabe tudo, desde comboios, autocarros, telefones, jornais, cadeias de rádio e televisão, pequenos grupos de encontro, agências de publicidade e, até, colónias de formigas, porque sabemos que os animais também comunicam entre si. Ora, quando um termo adquire um significado de tal forma global acaba por perder, senão todo, parte do seu sentido essencial. Parece nos, por isso, que se torna necessário começar por pôr um pouco de ordem nesta "babilónia" e tentar chegar a uma definição o mais clara possível do sentido da nossa comunicação.
Uma boa forma de começar poderá ser traçar as raízes etimológicas do termo. Com efeito, a palavras comunicação tem a sua origem no termo latino communicare que significava pôr em comum, estar em relação e que está na base de outros termos como comunidade, comunhão. Este sentido original, passou, a partir de dada altura a evoluir no sentido de designar a partilha de uma notícia (transmitir) uma notícia, uma doença, etc., e, daí, o uso da palavra no sentido global de partilha, passa progressivamente para segundo plano para dar lugar à utilização no sentido de transmissão, quer dizer, do círculo passa se ao segmento. É assim que, comboios, telefones e jornais se tornam "meios de comunicação", isto é, meios que permitem a passagem de algo de A para B e é este sentido de transmissão que predomina hoje em dia.
Em 1948 o cientista americano Norbert Wiener publica a sua obra Cibernética e, um ano mais tarde, um dos seus antigos alunos, Claude Shanon publica A Teoria Matemática da Comunicação. Esta obra, irá, com efeito, fornecer o modelo que irá ter a sua aplicação nos meios tecnológicos de transmissão de informação, como o telégrafo e o telefone.
Analisando este modelo, temos uma fonte de informação (por exemplo a nossa voz ao telefone), um emissor que transforma a mensagem em sinais (o telefone transforma a voz em oscilações eléctricas), um receptor, que reproduz a mensagem a partir dos sinais, e um destino, que é a pessoa a quem a mensagem é enviada. Durante a transmissão os sinais podem ser perturbados pelo ruído. Seja:

Graças, por um lado ao seu rigor conceptual, por outro à sua simplicidade, este modelo foi igualmente adoptado como enquadramento geral para o estudo da comunicação nas ciências sociais. Se bem que tenha sido objecto de muitas alterações e adaptações manteve, contudo o seu núcleo central à volta da noção de emissor - receptor. Torna se, assim, claro que o modelo do telégrafo acabou por impregnar decisivamente o estudo da comunicação humana, de tal forma que nos parece legítimo que possamos falar de um modelo telegráfico da comunicação.
Contudo, durante os anos 50, no momento em que o modelo telegráfico adquire uma posição dominante na reflexão. teórica sobre a comunicação, alguns investigadores americanos tentaram começar do zero no que diz respeito ao estudo do fenómeno da comunicação interpessoal, sem passar por Shannon [1]. Apesar de terem origens disciplinares diferentes este grupo de investigadores partiu de uma posição comum que era a oposição à utilização em ciências humanas do modelo de comunicação de Shannon, isto porque entendiam que este modelo tinha sido concebido por e para engenheiros de telecomunicações e não poderia ser utilizado no campo específico da comunicação interpessoal. Isto, porque a utilização do modelo telegráfico em antropologia ou em psicologia levou ao ressurgimento de concepções ultrapassadas ligadas à psicologia filosófica sobre a natureza do Homem e da comunicação. Segundo eles a concepção da comunicação entre dois indivíduos como transmissão de uma mensagem sucessivamente codificada e depois descodificada pressupõe uma concepção do psiquismo humano como algo encerrado dentro de um corpo, emitindo pensamentos sob a forma de palavras, sendo assim o acto comunicativo reduzido a um acto verbal, consciente e voluntário.
As ciências humanas deveriam, assim, procurar um modelo comunicacional mais adaptado à sua realidade. Um dos primeiros passos nesse sentido foi partir da seguinte questão: - tendo em conta os milhares de comportamentos possíveis (verbais e não verbais), quais são aqueles que vão ser retidos pela cultura para se organizarem como conjuntos significativos. Ora, pôr esta questão da selecção e da organização dos comportamentos remete nos para a existência de códigos, ou sistemas de regras que organizam o próprio comportamento. Estes códigos teriam como função organizar e seleccionar os comportamentos pessoais e interpessoais, regulariam a sua apropriação do contexto e, assim, a sua significação. A comunicação é entendida acima de tudo como um processo social permanente, integrando múltiplos modos de comportamento: - a palavra, o gesto, o olhar, a mímica, o espaço interindividual. etc.. Não se trata tanto de fazer uma oposição entre verbal e não verbal, na medida em que a comunicação é um todo integrado. Da mesma forma não é correcto, para estes autores, isolar cada comportamento do sistema global de comunicação e falar da "linguagem dos gestos", "linguagem do corpo", etc., assumindo estas expressões que cada postura ou cada gesto têm um único significado particular. Com efeito as "mensagens" oriundas de qualquer forma de comunicação não têm um significado intrínseco, pois é somente no contexto do conjunto dos modos de comunicação, actuados num determinado contexto interaccional, que o significado da comunicação pode ser correctamente apreendido.
Isto é tanto assim que dois autores pioneiros nesta área, Birdwhistell e Scheflen propõem uma análise de contexto, por oposição à análise de conteúdo mais adequada ao modelo telegráfico. Com efeito, se a comunicação é entendida unicamente como uma actividade verbal e voluntária, o significado está contido nas "frases" que os interlocutores trocam entre si e o analista da comunicação só tem que analisar essas "frases" para daí retirar todo o significado. Se, pelo contrário, a comunicação for concebida como um processo permanente, a vários níveis, o analista deverá, para apreender todo o significado, descrever o funcionamento dos diversos modos de comportamento num contexto determinado. Trata se de uma abordagem bastante complexa que faz apelo a metodologias de observação e análise elas próprias bastante complexas. É por isso que os procedimentos puramente experimentais em que a variação de um elemento x (sexo, idade, ou grau de intimidade dos interlocutores) são postos em correlação com as variações de um elemento y (por exemplo, a distância a que se encontram os interlocutores) não se revelam adequados para a abordagem da comunicação humana. Nesta perspectiva a mínima situação de interacção revela um nível de complexidade tal que é inútil tentar reduzi la a duas ou mais variáveis analisadas de forma linear. É em termos de níveis de complexidade, de contextos múltiplos, e de sistemas circulares, que deve ser pensada e realizada a pesquisa em comunicação humana, sendo assim que os modelos circulares oriundos da cibernética ou da teoria geral dos sistemas acabam por tomar um papel decisivo nesta área.
Esta concepção da comunicação enquanto processo complexo, circular, multidimensional e multinivelar levou a que recentemente tivesse sido utilizada a analogia da orquestra, (com vários instrumentos e a várias vozes) para designar esta forma de abordagem e possamos falar de um modelo orquestral da comunicação sendo esta abordada de um ponto de vista interaccional sistémico. A comunicação interpessoal desenvolve se como uma cadeia de actos significativos, que têm origem, alternadamente, num dos actores, e que são levados em conta pelo outro. Estes comportamentos portadores de significado - ou comportamentos comunicativos - não são exclusivamente linguísticos. Para além da linguagem verbal há outros sistemas de comunicação (Scheflen, 1981), em que se incluem comportamentos significativos tão diversos como movimentos do corpo ou de segmentos do corpo (gestos, olhar, expressão do rosto, riso, choro, etc.), manifestações neurovegetativas (alterações da cor da pele, actividades viscerais), toda a sorte de contactos físicos (aperto de mão, abraço, beijo), emissão de odores, e ainda o uso de certos adereços (vestuário, ornamentos, cosméticos). A analogia da orquestra permite acima de tudo compreender como cada indivíduo participa na comunicação sem que possamos dizer quem é que começa ou quem é que termina.
Mais adiante, quando estudarmos o modelo da pragmática da comunicação, que, no nosso entender, representa um dos mais interessantes desenvolvimentos deste modelo orquestral da comunicação, veremos que todo o comportamento é comunicação e que "não se pode não comunicar". Assim, qualquer indivíduo, só pelo facto de estar exposto à percepção do outro (mesmo sem fazer nada por isso), informa inevitavelmente um eventual observador sobre o seu aspecto físico e sobre o seu comportamento externo; e talvez lhe forneça ainda, por essa mesma via, alguns indícios que Lhe permitirão inferir outras informações (por exemplo, sobre a sua posição social ou sobre a sua disposição psicológica).
Esta comunicação não depende da intenção do sujeito que comunica e pode até ocorrer sem o seu conhecimento. Por vezes alguma informação é fornecida mesmo contra a vontade de quem a fornece, através de comportamentos expressivos cuja função é meramente consumatória. É o caso frequente de estados emocionais que se manifestam exteriormente através de alterações somáticas ou movimentos involuntários. Mais frequentemente, porém, a comunicação desempenha uma função instrumental, isto é, os indivíduos comunicam entre si intencionalmente, com o objectivo de trocar informação, ou seja, pôr em comum algo das suas experiências pessoais. Há, porém, que ter cuidado, quando se fala de comunicação humana, com a utilização do termo transferêncía (de informação). Este termo pode sugerir um processo linear, incluindo uma relação causal e uma sequência temporal de sentido único. Todavia, na comunicação, não somente o acto comunicativo de um indivíduo tem de ser percebido por outro indivíduo, mas o comunicador precisa de ter a confirmação disso. Mais ainda, a mensagem recebida dá a volta pelo interior do receptor (é compreendida e avaliada), podendo dar origem a uma mensagem resposta.
Para elucidar este conceito de comunicação, Watzlawick (1981) sugeriu que se compare a "resposta" de uma pedra ao receber um pontapé com a que, na mesma circunstância, daria um cão. A pedra desloca se, e o seu movimento é fisicamente determinado pelo impulso recebido (em concorrência com outros factores físicos como sejam certas características da pedra e do terreno). O comportamento do cão é menos previsível, mas não é de excluir que ele se volte para trás e morda o agressor. A diferença fundamental entre as duas respostas, segundo Watzlawick, está em que no primeiro caso o movimento realiza se com a energia transferida do pé para a pedra, enquanto no segundo caso, a mordedura, realiza se com a energia própria do cão. Quer dizer, enquanto o comportamento da pedra responde à transferência de energia, o comportamento do cão responde, a uma transferência de informação. É isso a comunicação. Quer isto dizer que se a pedra reage directamente e de forma linear (quanto mais força, mais deslocamento) à energia recebida, no segundo caso a informação recebida pelo cão vai ser analisada no contexto da relação com o homem e com a situação, dependendo a sua resposta dessa análise.
Estamos, assim, perante um sistema não apenas circular (porque inclui um feedback), mas interaccional, no sentido de que cada actor se assume simultaneamente como emissor e como receptor. Numa perspectiva interaccional-sistémica não podemos afirmar que um indivíduo comunica o que quer que seja - os indivíduos não comunicam, mas participam em processos de comunicação. Cada um de nós pode movimentar se, fazer ruído, mas não comunica. Podemos ver, podemos ouvir, sentir, saborear, mas não comunicar. Por outras palavras, se comunicação significa "pôr em comum" este processo não pode rigorosamente ser definido como tendo uma origem individual, podemos ser participantes, mas autores de comunicação. A comunicação, enquanto sistema não deve ser, então, concebida sobre o modelo elementar da acção e da reacção, por mais complexo que seja a sua concepção, mas deve ser apreendida ao nível da troca, da interacção.
É frequente, para analisar as propriedades comunicativas dos diferentes sistemas, começar por distinguir entre comunicação verbal e comunicação não verbal. Tal distinção, que tem por critério fundamental o suporte material da mensagem, privilegia de facto o código linguístico, opondo o ao conjunto de todos os outros sistemas. Por outro lado, esta classificação junta na mesma categoria signos de natureza tão diversa como corar ou tremer (expressões espontâneas incontroláveis) e acenar ou menear a cabeça (gestos voluntários e convencionais, equivalentes a signos linguísticos).
Note se, para finalizar, que o sistema interaccional, quase sempre encarado, na análise psicológica, como um sistema quase isolado (situado num contexto donde não pode vir senão algum ruído), é na realidade atravessado por outros sistemas de comunicação. Cada um dos interlocutores encontra se integrado numa imensa rede (Serres, 1969) por onde circulam permanentemente informações. Os circuitos integrados nessa rede não se situam sempre ao nível interpessoal ("de alguém para alguém"). Existe também o "diálogo" interior que é comunicação ao nível intra pessoal (de si para si); e há ainda informações que são transmitidas ao nível grupal (de um para muitos); e até ao nível cultural (de muitos para muitos), seja entre grupos distanciados no espaço (diferentes contextos), seja entre grupos distanciados no tempo (diferentes gerações).
Quer dizer, no diálogo cada interlocutor não leva apenas em conta o que o outro diz, mas um número indeterminado de informações que recebeu de outras fontes, por circuitos situados a qualquer dos níveis citados.
Pragmática da Comunicação Humana
A investigação centrada neste modelo tem sido desenvolvida no Mental Research Institute, Palo Alto, Califórnia por um conjunto de investigadores inspirados pelas ideias de Gregory Bateson, um antropólogo que desenvolveu uma teoria comunicacional da esquizofrenia baseada no conceito de double-bind.
A especificidade da Escola de Palo Alto resulta não tanto do facto de chamar a atenção para o problema da comunicação, mas pelo facto a comunicação ser vista não somente como veículo, como uma manifestação, mas como uma melhor forma de designar aquilo a que se costuma chamar "interacção" (Watzlawick & Weakland, 1977, p. 56).
A sua abordagem da comunicação parte da definição de três níveis de análise da comunicação humana: a sintaxe, definida como o estudo das relações formais dos signos entre si; a semântica, definida como o estudo das relações entre os signos e os objectos aos quais se referem, quer dizer, o estudo do sentido; e a pragmática, definida como o estudo da relação entre os signos e os seus utilizadores, isto é, os correlatos comportamentais da comunicação. É, com efeito, sobre o aspecto pragmático da comunicação que estes autores se vão debruçar - as suas observações sobre o processo de comunicação humana permitiu lhes desenvolver um conjunto de cinco premissas básicas as quais, sendo seguidas nas suas implicações , permitem construir uma perspectiva diferente da comunicação humana.
Estas proposições básicas definem algumas propriedades formais da comunicação a partir das quais é feita toda a reflexão sobre a relação interpessoal.
Propostas para uma axiomática da comunicação
1º Axioma
Começamos por abordar o primeiro axioma chamando a atenção para uma propriedade fundamental do comportamento que se refere ao facto de que o comportamento não tem contrário. Dito de outra forma: - não existe qualquer tipo de não comportamento, ou ainda, não podemos em ocasião alguma deixar de nos comportarmos. Ora, se admitirmos que numa interacção [2] todo o comportamento tem um valor de mensagem, podemos concluir que não é possível não comunicar, isto é, qualquer comportamento na presença de outro é comunicação. Esta afirmação, se bem que óbvia não é de forma alguma trivial.
Em qualquer situação de contacto social existe comunicação envolvendo uma multiplicidade de formas, conteúdos e canais. Actividade ou inactividade, discurso ou silêncio, tudo tem um valor de mensagem. Quer dizer influenciam de alguma forma os outros que, por sua vez, não podem deixar de reagir a essa influência, participando, assim, no processo de comunicação. Naturalmente o simples facto de ficarmos calados num determinado momento, ou de não "ligarmos" à conversa de outra pessoa não constitui excepção àquilo que acabámos de referir. Uma pessoa sentada sozinha num bar cheio de gente olhando em frente, uma pessoa numa sala de espera de um consultório que não tira os olhos de um jornal, um passageiro num avião que permanece a maior parte do tempo recostado no seu assento de olhos fechados, fazem todos, de forma mais ou menos eficaz, passar a mensagem de que não querem falar com ninguém, nem estão interessados em que alguém lhes dirija a palavra; em geral os seus "vizinhos" compreendem a mensagem e deixam nos em paz. Ora podemos até pensar que há aqui mais comunicação do que em muitas discussões acaloradas.
Esta constatação não depende de outro tipo de questões como seja o grau de intencionalidade, consciência ou sucesso de cada acto comunicativo. Isto é não existe só comunicação quando esta é intencional, consciente ou bem sucedida, quer dizer se há compreensão mútua. Nesta perspectiva estas são questões importantes, mas de outra ordem. Quer dizer, Aquilo que o presente axioma pretende acentuar é que qualquer que seja o tipo de comportamento exibido: actividade ou inactividade, verbalização ou silêncio influenciam o comportamento do outro, que por sua vez não pode deixar de reagir a esse mesmo comportamento, logo comunicando.
Concluiremos fazendo notar que até aqui temos utilizado o termo "comunicação" num duplo sentido: por um lado designando o tema global do que temos vindo a tratar, (a comunicação) por outro, num sentido mais específico, designando uma unidade de comportamento (uma comunicação entre o sujeito A e o sujeito B). Importa agora introduzir algum rigor de linguagem. Continuaremos a designar por comunicação o aspecto pragmático da teoria da comunicação humana. Para referir as diferentes unidades de comunicação (ou de comportamento) somos forçados a escolher termos que são já de uso corrente. Uma unidade de comunicação será referida como mensagem, ou, nos casos em que não houver confusão possível, como uma comunicação. Uma série de mensagens trocadas entre sujeitos será designada por interacção. Para além disso, se admitimos que todo o comportamento é comunicação, mesmo no caso da unidade mais simples, torna se evidente que quando falamos em mensagem não nos referimos à expressão única de um indivíduo. Mensagem envolve sempre uma troca composta por modos mais simples ou mais complexos de comportamentos: - linguísticos (linguagem verbal), paralinguísticos (entoações, acentuações), posturais, contextuais, etc., cada um deles servindo para especificar o sentido dos outros. Os diferentes elementos de que pode ser composta uma mensagem (considerada como um todo) são passíveis de permutações muito variadas e muito complexas, podendo ir da congruência à incongruência e até ao paradoxo. A pragmática da comunicação dedica se precisamente a compreender os efeitos dessas combinações nas situações interpessoais.
A implicação de tudo isto no contexto educativo é por demais evidente pois daqui para a frente há a considerar todo ou qualquer elemento, mesmo aqueles a que se não dava atenção, para compreender o processo de comunicação (ou relação) educativa. O tom de voz, o próprio silêncio, colar de pérolas ou as jeans da professora, a cor das paredes da sala, as posturas físicas, tudo isto podem ser elementos de comunicação.
2º Axioma
A partir do que dissemos até agora estamos em condições de compreender que toda a comunicação funciona a partir de um envolvimento recíproco e, por isso, define uma determinada relação entre os elementos que participam num determinado processo de comunicação. Por outras palavras podemos dizer que uma comunicação não se limita a transmitir uma informação, mas ao mesmo tempo tende a induzir um determinado comportamento. A informação que é transmitida designa naturalmente o conteúdo da mensagem e pode ter por objecto tudo o que é comunicável, independentemente do facto de a informação ser verdadeira, válida ou até compreensível. Por outro lado, os elementos que designam a forma como deve ser entendida a mensagem definem a relação entre os parceiros [3]. Por exemplo a seguinte pergunta: - Estas pérolas são verdadeiras? colocadas em duas situações diferentes, situação A: posta por alguém numa joalharia ao vendedor, e situação B: posta por uma mulher a outra em voz alta numa recepção de cerimónia; se bem o conteúdo seja o mesmo, define contudo, duas relações completamente diferentes [4].
Na comunicação humana este aspecto meta-comunicativo (a informação sobre a informação) é muitas vezes passado através de elementos verbais: isto é uma ordem!, Estava a brincar... ou exprimirem se forma não verbal através de gritos, sorrisos, agitando os braços, e de uma infinidade de outras maneiras. A relação pode, assim, ser compreendida a partir do contexto onde se efectua a comunicação. O contexto funciona então como uma meta comunicação.
Podemos assim enunciar o terceiro axioma da comunicação: - toda a comunicação apresenta dois aspectos: o conteúdo e o contexto de tal forma que o segundo engloba o primeiro, sendo, por isso, uma forma de metacomunicação. O aspecto de conteúdo da comunicação transmite uma informação, enquanto que o aspecto de contexto designa a forma como deve ser entendida essa informação, definindo assim a relação entre os elementos envolvidos na comunicação.
3º Axioma
Consideremos agora uma outra propriedade fundamental da comunicação: - a interacção entre os participantes em processos de comunicação. Para um observador exterior uma série de mensagens pode ser considerada como uma sequência ineterrupta de trocas. Contudo cada uma das pessoas, para darem sentido ao seu comportamento e ao dos outros, fazem aquilo que foi designado por pontuação da sequência de factos.
A noção de pontuação tem aqui um significado muito próximo do verificado na linguagem escrita porque tem fundamentalmente a mesma natureza e serve a mesma função. No que diz respeito à sua natureza, da mesma forma que na linguagem escrita, a pontuação no processo de interacção marca o início e o fim de sequências concretas. Por exemplo, um ponto final marca o fim de uma frase com um sentido em si e, ao mesmo tempo, marca o início de outra frase [5]. Analisemos agora o que diz respeito à sua função. Por definição a comunicação consiste numa corrente contínua de actos comunicativos alternados, Contudo, de forma a dar sentido, a definir uma ordem, a este processo, cada um dos participantes vai pontuar essa sequência de uma determinada maneira, podendo, por exemplo definir o seu comportamento como reacção, como resposta a uma acção do outro, ou, pelo contrário assumir a iniciativa, definindo o comportamento do outro como resposta.
Aqui a questão principal não é saber se a pontuação da sequência de comunicações no seu conjunto é boa ou má. O que é evidente é que a pontuação serve para estruturar a comunicação de tal forma que se torne de alguma forma intelegível para os elementos em presença, sendo por isso essencial ao funcionamento de qualquer interacção. Do ponto de vista cultural todos nós temos em comum muitas convenções de pontuação que não nem mais nem menos exactas que outras maneiras de pontuar os mesmos factos, mas que acabam por ter uma função estruturante das sequências de interacção sejam elas mais banais ou mais significativas. Dizemos, por exemplo, que num grupo um indivíduo se comporta como um líder, e outro indivíduo como seguidor, mas se observarmos com mais atenção, alargando o campo da nossa observação, verificamos que é difícil dizer quem é que tomou a iniciativa e em que é que se tornariam um sem o outro.
Se tivermos em conta o campo global das relações humanas, verificamos que o desacordo sobre a forma de pontuar uma sequência de interacção está origem de muitos conflitos relacionais. As incompatibilidades de esquemas ou de pontuação, uma vez que dizem respeito a disposições subjectivas, podem ocorrer na comunicação qualquer que seja a natureza dos comportamentos comunicativos.
Tomemos como exemplo um casal a braços com um problema conjugal; o marido contribui para esse problema com a sua atitude de afastamento e passividade enquanto que a mulher mostra o seu descontentamento através de críticas severas. Ao comentarem a sua relação o marido dirá que o seu afastamento é a única resposta possível contra o criticismo da sua mulher; esta, pelo contrário dirá que esta interpretação é uma distorção grosseira e deliberada daquilo que se passa na sua relação conjugal - ela critica o marido precisamente devido à sua passividade. Se pusermos de lado alguns elementos circunstanciais e passageiros verificamos que as suas brigas se resumem a uma monótona troca de mensagens deste género: "Eu afasto me porque tu és muito agressiva" e "Eu sou agressiva porque tu te afastas". Cada interlocutor "recorta" a seu modo a sequência de mensagens em unidades "estímulo resposta", isto é, causa efeito; e pode então acontecer que a mesma mensagem seja estímulo ou causa para um (por exemplo, uma provocação), e resposta ou efeito para o outro (resposta à provocação). Estas incompatibilidades de pontuação não só perturbam a compreensão das mensagens, como afectam também a relação interpessoal.
Outro exemplo deste processo é intervimos numa briga de crianças e perguntamos quem é que começou. Então o menino A diz: "foi ele que me deu um pontapé! ao que o menino B responde: "não! porque tu antes tinhas me empurrado. Etc., Etc..
Um processo análogo passa se ainda ao nível das relações internacionais, especialmente no que diz respeito à corrida aos armamentos. Se, como as principais potências militares defendem, a melhor maneira de defender a paz é preparar a guerra, não se percebe porque é que todas as nações tendem a considerar os arsenais bélicos das nações potencialmente inimigas como uma ameaça à paz. É, contudo, isso que acontece, o que tem habitualmente como resultado cada uma das nações procurar aumentar o seu poderio militar, de forma a ultrapassar aqueles países que acham que os podem ameaçar. Este crescimento de armamento é, por sua vez, considerado uma ameaça para a nação A, que tende a aumentar os seus armamentos defensivos, o que é visto como uma ameaça pela nação B, que irá melhorar as suas defesas e assim por diante...
Podemos, então formular um terceiro axioma da comunicação humana: A natureza de uma relação depende da pontuação da sequência de interacções entre os elementos envolvidos na comunicação.
4º Axioma
Na comunicação humana, podemos designar os objectos, num sentido vasto do termo, de duas maneiras inteiramente diferentes. Podemos representá los por qualquer coisa que se assemelhe, um desenho, por exemplo, ou podemos designá los por um nome. Assim, a frase escrita: "O gato apanhou o rato" podíamos substituir as palavras por imagens, o que, sendo bem feito não acarretaria nenhuma perda de sentido. No primeiro caso (utilização de símbolos linguísticos) estamos em presença de um modo de comunicação digital, no segundo caso (utilização de analogias) estamos perante uma forma de comunicação analógica.
Cada vez que nos servimos de uma palavra para referir uma coisa é evidente que a relação que estabelecida entre o nome e a coisa nomeada é um relação arbitrária. As palavras são sinais arbitrários que utilizamos de acordo com as regras da língua que falamos. Não há nenhuma razão particular para que a junção das letras g.a.t.o sirvam para designar um determinado animal. Trata se de uma convenção semântica de uma dada língua. Se falássemos francês a frase acima exemplificada tomaria a forma de: "Le chat a attrapé la souris." utilizando palavras diferentes para dizer a mesma coisa. Fora dessa convenção não existe nenhuma outra correlação entre uma palavra (significado) e o objecto concreto designado (significante), com excepção eventualmente da onomatopeias, o que não tem um significado particular.
Pelo contrário, na comunicação analógica existe verdadeiramente algo de específico naquilo de que nos servimos para designar um objecto determinado. A comunicação analógica tem relações mais directas com aquilo que é representado. O exemplo seguinte permitirá clarificar um pouco mais as diferenças entre estes dois modos de comunicação: - se escutarmos uma língua estrangeira na rádio não conseguiremos compreendê la, contudo somos capazes de deduzir algumas informações elementares a partir da observação de um discurso através dos gestos e dos movimentos que servem para assinalar uma intenção, mesmo que estejamos perante um indivíduo de uma cultura completamente diferente. Podemos supor que a linguagem analógica tem as suas raízes nos períodos mais arcaicos da evolução e que, por isso tem uma validade muito mais geral que a comunicação digital, muito mais recente e abstracta. O que é então a comunicação analógica? A resposta é relativamente simples: - Praticamente toda a comunicação não verbal. Contudo é necessário termos em atenção que muitas vezes restringimos a noção de não verbal aos movimentos corporais. Na definição de não verbal, contudo, deve ser englobada a postura, gestos, mímica, inflexões da voz, sucessão, ritmo e entoação das palavras, e qualquer outros indícios que nunca faltam em todos os contextos nos quais ocorre uma interacção.
No estado actual de conhecimentos supomos que o Homem é o único organismo capaz de utilizar estes dois modos de comunicação: digital e analógico. Não sabemos ainda o significado e importância exactos deste facto, contudo, se por um lado, a maior parte, senão todas, as obras da civilização seriam impensáveis se o Homem não tivesse elaborado uma forma de comunicação digital, por outro, existe um domínio vasto onde confiamos quase exclusivamente na comunicação analógica, é o domínio da relação. Enquanto que a linguagem digital é importante no que toca à troca de informação sobre os objectos com vista à transmissão do conhecimento, a comunicação analógica, sendo a linguagem da emoção por excelência, serve essencialmente para assinalar intenções e indicações de humor através da qual definimos a natureza das nossas relações, mais do que para transmitir mos informação sobre os objectos. Este modo de funcionamento está muito mais próximo do comportamento animal, pois, por exemplo, quando me levanto e abro a porta do frigorífico se o meu gato vem roçar se nas minhas pernas miando suavemente, isso não quer dizer "Eu queria leite...", que é o que os seres humanos normalmente entendem, mas, mais correctamente, remete para um tipo especial de relacionamento: "Quero que sejas a minha mãe...", isto porque este tipo de comportamento de roçar o corpo só pode ser observado entre gatos juvenis e gatos adultos, nunca entre dois animais adultos. Com efeito, muitas pessoas estão convencidas que o seu animal de estimação "compreende" aquilo que eles dizem, mas, convém precisar que o que o animal compreende não é o sentido das palavras, mas toda a riqueza da comunicação analógica que acompanha o nosso discurso.
Com efeito, sempre que a relação é o tema em causa a linguagem digital revela se extremamente pobre. Isto é assim não somente no caso da interacção entre animais e homens, mas em muitas outras circunstâncias da vida humana: fazer a corte, amar, ajudar, combater e, naturalmente cuidar de crianças pequenas. Muitas vezes dizemos que as crianças têm uma capacidade especial para as características de personalidade dos adultos, o que é de alguma forma assim porque, por um lado são especialmente sensíveis aos aspectos analógicos da comunicação e, por outro, é muito fácil iludir os outros do ponto de vista verbal, mas é muito difícil mentir no domínio analógico. Em resumo, se nos lembrarmos que a comunicação tem dois aspectos: conteúdo e relação, podemos pensar que provavelmente o conteúdo tenderá a ser preferencialmente transmitido no modo digital enquanto que a relação é essencialmente transmitida de forma analógica.
Comparemos agora algumas das características específicas da linguagem analógica e da linguagem digital. Uma das primeiras distinções situa se ao nível da complexidade, da flexibilidade e capacidade de abstracção, que são muito maiores na linguagem digital. Para sermos mais precisos diremos que não existe nada na comunicação analógica que se possa comparar à sintaxe lógica do material digital. O que quer dizer que a linguagem digital não possui equivalente para certas proposições lógicas de importância fundamental como "se... então", "ou... ou", etc., sendo igualmente difícil, senão impossível, transmitir conceitos abstractos [6].
Uma outra distinção tem a ver com o facto de a comunicação analógica, ao contrário do código digital, não poder exprimir a negação simples, isto é, não possui uma expressão que signifique "não". Mais concretamente, as lágrimas podem exprimir alegria ou tristeza, um punho fechado pode ser um sinal de agressividade, força, embaraço, um sorriso pode exprimir simpatia ou desprezo. A linguagem analógica não contém, em si, elementos discriminantes que indiquem, perante sentidos contraditórios, qual deles deverá ser adoptado; assim como não tem índices que permitam distinguir o presente, o passado e o futuro.
Qualquer pessoa encontrando se na obrigação de combinar estes dois modos de comunicação tem que continuamente fazer a tradução de um no outro. Ora existem dificuldades de tradução em ambos os sentidos. Não podemos traduzir a linguagem digital em linguagem analógica sem uma importante perda de informação e a operação contrária apresenta igualmente dificuldades consideráveis: para podermos falar sobre a relação temos que ser capazes de encontrar uma tradução adequada da comunicação analógica em comunicação digital.
Em síntese: Os seres humanos usam dois modos de comunicação: digital e analógica. A linguagem digital possui uma sintaxe lógica bastante complexa e bastante cómoda, mas não tem uma semântica apropriada à relação. Pelo contrário a linguagem analógica tem uma semântica muito rica, mas não a sintaxe apropriada a uma definição inequívoca da natureza das relações.
5º Axioma
Em 1935 Gregory Bateson relatou um fenómeno que tinha observado na tribo dos "Iatmul" na Nova Guiné o qual designou por esquizmogénese e definiu como referindo se a um processo de diferenciação das normas de comportamento individual no seguimento de uma interacção cumulativa entre indivíduos.
Se, por exemplo, numa determinada cultura o modelo de comportamento apropriado para o indivíduo A for um modelo autoritário podemos esperar que outro indivíduo B, que entre em interacção com o indivíduo A, adopte um modelo de comportamento culturalmente definido como submissão. É igualmente provável que esta submissão tenda a favorecer novos comportamentos autoritários do indivíduo A que exigirão comportamentos submissivos e assim por diante de tal forma que A se tornará cada vez mais autoritário e B cada vez mais submisso. Este processo descreve um modelo de esquizmogénese complementar. Se, pelo contrário, ao comportamento autoritário do indivíduo A, o indivíduo B responde com um comportamento de tipo autoritário, é provável que se desenvolva uma situação de competição na qual o autoritarismo conduz a um cada vez maior autoritarismo. Esta situação foi designada por esquizmogénese simétrica.
Estes dois modelos que acabámos de referir mostraram ser bastante úteis em diversas outras situações interaccionais de tal forma que acabaram por ser designados simplesmente por interacção complementar e interacção simétrica. Podemos dizer que se tratam de relações fundadas seja sobre a igualdade (simetria), seja sobre diferença (complementaridade) [7]. No primeiro caso, os parceiros tendem a adoptar um comportamento em espelho, e por isso, a sua interacção pode ser considerada simétrica. No segundo caso o comportamento de um dos parceiros de certa maneira complementa o comportamento do outro e, assim, consideramos a sua interacção complementar. Uma interacção simétrica caracteriza se, assim, pela igualdade e minimização das diferenças, enquanto que uma interacção complementar se funda na maximização da diferença.
Numa relação complementar existem duas posições diferentes possíveis. Um dos parceiros pode ocupar uma posição que pode ser designada como superior, primária, ou "por cima" (one-up) e o outro a posição correspondente, dita inferior, secundária ou "por baixo" (one down). Esta designação é bastante cómoda desde que nem uma nem outra posição seja sinónimo de "bom" ou de "mau", "forte" ou "fraco". Com efeito o contexto social ou cultural aponta em determinados casos para uma relação complementar (por exemplo, mãe-filho, médico-doente, professor-aluno, etc.) assim como, de um ponto de vista pessoal, duas pessoas podem acordar numa relação deste tipo. Note se igualmente que na maior parte dos casos se trata de uma relação solidária no sentido os comportamentos se implicam e sustentam reciprocamente. Não é geralmente um dos parceiros que impõe uma relação complementar ao outro, mas cada um deles comporta se de uma maneira que pressupõe e ao mesmo tempo justifica, o comportamento do outro.
Se quisermos complexificar um pouco este processo poderíamos ainda falar de relação "meta complementar", na qual A permite ou constrange B a depender dele e, seguindo o mesmo raciocínio, poderíamos conceber igualmente uma relação de "pseudo simetria" na qual A deixa ou constrange B a tomar uma posição simétrica. Contudo, esta linha de análise poderia eventualmente conduzir a uma regressão até ao infinito. Podemos evitar isso tendo em conta a distinção entre observação de comportamentos redundantes, e as suposições que podemos fazer sobre as razões desses comportamentos. Quer dizer, temos essencialmente em conta a forma como se comportam os dois parceiros, abstraindo nos das razões que eles têm ou crêem ter para se comportarem dessa maneira.
Temos, assim, um quinto axioma: Toda a comunicação é simétrica ou complementar segundo se baseia na igualdade ou na diferença.
Conclusão
A propósito do conjunto de axiomas que acabámos de apresentar, convém fazer algumas chamadas de atenção.
Em primeiro lugar, tratam se basicamente de propostas, definidas de uma forma não muito rigorosa, que se pretendem constituir essencialmente como pontos de partida para uma reflexão global sobre os processos de comunicação humana, mais do que um sistema conceptual perfeito e acabado.
Em segundo lugar, tratam se de um conjunto de axiomas bastante heterogéneo porque resultam da observação de fenómenos de comunicação situadas em registos muito variados. Se existe algum factor comum este não se situa tanto na sua origem, mas na sua importância pragmática. Assim, a impossibilidade de não comunicar faz com que toda a situação comportando duas ou mais pessoas seja uma situação interpessoal, uma situação de comunicação. O aspecto "relação" de uma tal comunicação dá uma especial atenção a este ponto. A importância pragmática interpessoal dos modos de comunicação digital e analógico não reside somente num suposto isomorfismo entre conteúdo e a relação, mas na ambiguidade inevitável e significativa a que se arriscam emissor e receptor sempre que tentem traduzir um modo de comunicação noutro. Aquilo que foi dito acerca dos problemas de pontuação repousa precisamente sobre a metamorfose implícita do modelo clássico "acção-reacção". Enfim, o paradigma simetria-complementaridade é, talvez, aquele que se aproxima mais do conceito matemático de função. As posições dos indivíduos são variáveis que podem tomar um número infinito de valores, mas cujo sentido não é absoluto porque só pode ser definido no contexto da relação recíproca.

Formas e tipos de comunicação
Aspectos Gerais
Comunicação Verbal
Construção do significado
Linguagem e pensamento
Comunicação e Influência
Os actos comunicativos têm normalmente por objectivo a passagem de informação. Ora se, como dizia Bateson, toda a informação resulta de uma diferença, para que haja informação terá que ser introduzido algum aspecto de diferenciação, isto é de transformação ou de mudança. Isto é, após um determinado processo de comunicação terá havido alguma mudança em pelo menos um dos elementos participantes nesse processo, seja ao nível do seu sistema de crenças (conhecimentos) ou no seu estado afectivo, seja no seu comportamento externo. Mas há casos em que alguém origina mudanças cognitivas, afectivas ou comportamentais em outra pessoa, mesmo sem o desejar e até sem o saber; e outros casos em que a mudança efectivamente provocada no outro vai num sentido diferente do que o agente pretendia.
Este fenómeno, que consiste em provocar mudança no outro, e que é designado influência social, está de tal modo associado à comunicação, que bem se pode dizer que todos os comportamentos comunicativos - que é, afinal, o mesmo que dizer todos os comportamentos - possuem algum poder suasório; ou, encurtando razões, que a comunicação é essencialmente retórica.
Estes efeitos de mudança são, porém, diversificados. Pode ser a simples informação pertinente que o destinatário integra no seu sistema cognitivo (aprendizagem). Por vezes são os argumentos convincentes que o fazem mudar de opinião (persuasão). Há também as pressões irresistíveis que forçam o seu comportamento (ameaça). E existem ainda casos em que um indivíduo se deixa influenciar nas suas crenças, sentimentos ou comportamentos sem se dar conta da mensagem que está a influenciá lo (sugestão).
As mudanças ocorridas nos processos de comunicação não se devem, porém, exclusivamente à dimensão retórica da mensagem. Há também variáveis ligadas às pessoas implicadas, ou seja, ao agente influenciador (que possui mais ou menos poder social e ao sujeito alvo (que é mais ou menos influenciável) [8].
French & Raven (1967) identificaram cinco bases do poder social, ou características cuja presença num agente-influenciador lhe confere capacidade para exercer influência sobre um sujeito-alvo, desde que este lhas reconheça ou atribua. Uma pessoa deixa se influenciar por outra nas suas crenças, sentimentos ou comportamentos ora porque lhe atribui a capacidade de premiar (poder de recompensa) ou de castigar (poder de punição), ora porque se identifica com ela (poder de referência), ora porque lhe reconhece o direito de a controlar (poder legitimado), ora porque crê que ela merece crédito (poder de competência). Note se, porém, que o poder atribuído em qualquer destas bases raramente é generalizado ou ilimitado, antes se circunscreve a uma área determinada e não ultrapassa certo limite.
A maior ou menor influenciabilidade de uma pessoa tem naturalmente algo a ver com uma característica geral relacionada com a variável autonomia/dependência. Mas deixar se influenciar numa situação concreta pode corresponder a motivações muito diferentes. O objectivo do sujeito pode ser apenas obter um determinado efeito social (por exemplo, para receber uma recompensa ou evitar uma punição). Ele pode pretender preservar ou cultivar uma relação com o agente (por exemplo de amizade ou simpatia). Finalmente/ pode também acontecer que ele aceite a influência porque houve uma adesão ao conteúdo, visto como consonante com os seus próprios valores.
As diferenças apontadas nos motivos correspondem também diferenças nos efeitos. Assim, se é apenas o efeito social que conta, pode acontecer que a conformidade do sujeito se mantenha apenas enquanto houver vigilância. Se é uma questão de relação pessoal, a atitude conformista poderá durar enquanto essa relação for sentida como importante. Quando há adesão ao conteúdo, é natural que a conformidade do sujeito permaneça, independentemente do agente influenciador.
Podemos, então, distinguir vários tipos de conformidade, consoante o sujeito modifica ou mantém intacta a sua convicção, perante uma tentativa de influência em que o agente apresenta argumentos ou exerce pressões (Hare, 1985). Aceitar os argumentos de outrem sem alterar a própria convicção é mera convergência de posições. Ceder a pressões, mantendo a convicção intacta é submissão. Modificar a convicção pessoal cedendo a argumentos é consenso. Modificar a convicção pessoal cedendo a pressões é conformismo.
As técnicas de persuasão servem precisamente para aumentar a eficácia da comunicação, no sentido de alterar as convicções de outrem pela via da argumentação racional. Há, porém, situações em que as pessoas se deixam levar por uma pressão externa, ao ponto de cometerem erros grosseiros de percepção ou de juízo; e outras em que cedem a uma pressão externa ao ponto de se comportarem em desacordo com valores que lhes são caros.
Um exemplo típico do primeiro tipo de situação é o chamado efeito Asch, que consiste em um indivíduo adoptar a opinião manifestada por uma maioria, mesmo quando ela lhe parece contrariar a evidência. A opinião da maioria exerce sobre o indivíduo uma pressão implícita. Um exemplo do segundo tipo é o chamado efeito Milgram, que se refere a uma pressão explícita: perante uma ordem ou injunção que lhe impõe um comportamento inaceitável, o indivíduo pode "passar por cima", das suas convicções e valores, como se se considerasse um mero executor, isento de qualquer responsabilidade (Milgram, 1982).
Estamos aqui perante a outra face da influenciabilidade, que é a incapacidade de resistência.

II -Quais são as teorias da Comunicação? A disparidade das respostas encontradas nas obras especializadas mostra a necessidade de ir-se além da simples compilação das teorias, a fim de refletir sobre sua sistematização. O problema que se coloca para este artigo consiste em analisar e explicitar as bases do cepticismo que cerca a questão, amplamente predominante entre os especialistas da Comunicação e não sem conseqüências para a estruturação da área.
Ciberlegenda Número 5, 2001
Cepticismo e Inteligibilidade do Pensamento Comunicacional

L.C. Martino
Resumo: Quais são as teorias da Comunicação? A disparidade das respostas encontradas nas obras especializadas mostra a necessidade de ir-se além da simples compilação das teorias, a fim de refletir sobre sua sistematização. O problema que se coloca para este artigo consiste em analisar e explicitar as bases do cepticismo que cerca a questão, amplamente predominante entre os especialistas da Comunicação e não sem conseqüências para a estruturação da área.
Palavras chave: epistemologia da comunicação, teorias da comunicação, pensamento comunicacional.
Não obstante todo o volume de publicações sobre pesquisas em comunicação, os estudos sobre seus fundamentos não ocupam um lugar de destaque. Não é raro encontrarmos, entre os mais renomados pesquisadores desse campo, apontamentos sobre a fragilidade dos conhecimentos aí gerados.
A primeira explicação para isso se encontra na própria quantidade de teorias relacionadas ao tema. Como constata Robert Escarpit , « os domínios do saber tornaram-se demasiado especializados para que um só homem, mesmo após longos anos de reflexões e de leituras, freqüentemente de aprendizagens difíceis, possa aprender ainda que seja uma parte » (1). Sob um tom dramático, ele invocava a necessidade de sistematização do conhecimento e apresentava seu trabalho como a « última chance » para realizar uma visão de conjunto do campo de estudo da Comunicação.
Entretanto as dificuldades não se limitam apenas à extensa produção sobre a matéria, elas também envolvem a própria organização do conhecimento desta disciplina, de modo que ao problema da quantidade de publicações se sobrepõe o da qualidade da reflexão.
Neste sentido, Bernard Miège, por exemplo, fazendo um balanço dos conhecimentos da área, ressalta que ali abundam as “oposições lógicas, a diversidade dos níveis apreendidos e as contradições”, e conclui que
embora tenha alcançado um certo nível de elaboração que, a partir de agora, lhe permite apreender a complexidade dos fenômenos que pretende abordar, o pensamento comunicacional não está unificado, nem pronto para se apresentar como tal (2).
Céptico, chega a colocar em dúvida a pertinência do próprio pensamento comunicacional (ibidem), ainda que não seja para depois temperá-lo com um certa dose de relativismo. Contudo, o cepticismo em relação à organização da área parece ser mesmo a tônica dessa matéria, e se encontra um pouco por toda parte.
Miguel de Moragas, mais radical, não economiza críticas no tocante à possibilidade de um “estatuto epistemológico próprio” à Comunicação. Para ele, “esta nunca foi, como tampouco é agora, a melhor condição de nosso objeto” (3), indicando claramente a falta de especificidade da Comunicação enquanto um saber autônomo. Em sua opinião, tratar-se-ia apenas de “uma investigação subsidiária”.
Já para Francis Balle, a Comunicação teria vários signos próprios ao saber científico, notoriamente os da institucionalização (escolas, revistas, sociedades nacionais e internacionais...), contudo hesita em lhe atribuir este status. Para ele a Comunicação oscila entre uma arte (ou técnica) e uma ciência; em todo caso, ele compara o estado dos estudos sobre os meios a uma “colcha de retalhos”, dado a abundância e diversidade de abordagens (4). Tratar-se-ia de um “saber em mosaico”, que requer uma pluralidade de disciplinas, e aponta, entre outros obstáculos para sua ascensão ao status científico, a inexistência de “um acordo entre os pesquisadores sobre os contornos do domínio estudado” (5).
Uma das razões para esta falta de acordo, como observa José MARQUES DE MELO, é que “ao analisar o fenômeno comunicativo, cada ciência e corrente filosófica utiliza a sua própria perspectiva, a sua própria terminologia, os seus conceitos específicos (6), expondo, ironicamente, os pesquisadores do campo ao que, de nossa parte, poderíamos chamar de “dificuldades de comunicação” (7).
Armand e Michèle Mattelart também seguem na mesma direção e engrossam o coro das opiniões cépticas. Para eles o domínio da Comunicação se encontra exposto e acumula
doutrinas ao sabor da moda e prêts-à-porter do pensamento com neologismos meteóricos se fazem passar por esquemas explicativos definitivos, por lições magistrais, apagando, por onde passam, os achados de uma lenta acumulação, contraditória e pluridisciplinar dos saberes na matéria e reforçando a impressão de frivolidade do objeto (8).
Como tantos outros, eles também alertam contra a falta de sistematização dos conhecimentos e para a pouca atenção que o assunto vem recebendo dos pesquisadores da área. Na continuação do texto citado, afirmam:
Talvez, mais neste campo de conhecimento que em outros, é forte a ilusão de pensar que se pode fazer tábula rasa desta sedimentação e que, nesta disciplina, à diferença de outras, tudo está por se fazer (9).
De um modo geral, as opiniões convergem para o diagnóstico indicado por Bernard Miège, segundo o qual
as ciências da comunicação não podem pretender ter atingido uma maturidade suficiente e os pesquisadores que a reclamam estão longe de terem chegado a um acordo mínimo sobre seus objetos de pesquisa (...) (10).
Não é raro encontrarmos afirmações como estas nas páginas dos autores mais notáveis da área e mais do que multiplicar os exemplos, uma questão se impõe: mas qual é o significado desse cepticismo?
Qual é o significado desse cepticismo?
A análise mais detalhada desta questão paradoxal escapa às dimensões do presente texto. Contudo, mesmo sem poder dispensar um tratamento a altura de sua importância, é difícil passar ao largo de seu exame, já que uma tal posição céptica coloca em jogo problemas não somente de coerência, mas da própria consistência da área de Comunicação.
A rigor talvez fosse preciso falar em “cepticismos”, visto que há diferenças de grau e de direcionamento em relação aos vários aspectos do problema. Esquematicamente podemos distinguir duas atitudes em jogo. Em uma primeira versão, o cepticismo nos leva a duvidar da possibilidade de uma ciência da Comunicação. Bem entendido, não se trata de uma atitude auto-negativa e portanto contraditória, como poderia sugerir uma primeira impressão, mas apenas de negar à Comunicação um estatuto de ciência ou de saber independente. O problema em jogo é o da autonomia dessa disciplina. Para muitos, tratar-se-ia apenas de um ramo da Sociologia ou Psicologia. Neste caso, não existiria um saber propriamente comunicacional, mas saberes que se ocupam de certos objetos empíricos, genericamente designados como “fenômenos comunicacionais”, ou simplesmente “comunicação”. Em uma segunda versão, se reconhece sua autonomia, o cepticismo se dirige apenas ao atual estado da organização dessa disciplina.
De fato, as dúvidas levantadas por Balle, mas principalmente aquelas expressas por Moragas, dizem respeito à possibilidade de uma ciência da Comunicação, enquanto que para pesquisadores como Scarpit e Mattelart, se trataria apenas do atual estágio de sua formulação, ou uma condição da natureza dessa disciplina, como afirma Bougnoux, que a aproxima da Filosofia (11). A tendência dos pensadores mais cépticos é tomar o termo comunicação (o qual grafamos em minúsculo) como sinônimo de “fenômeno comunicacional” e compreender a Comunicação (grafado em maiúsculo) como um campo de estudos, constituído por abordagens heterogêneas, reunidas sob um único traço comum, a análise dos “fenômenos comunicacionais”, não obstante toda a diversidade de origens e intenções dessas abordagens. Já em sua versão mais branda, tende-se a aceitar-se a idéia da Comunicação como uma disciplina, ainda que se critique a incapacidade de se fornecer um objeto de estudo satisfatório.
Curiosamente, constata-se a tendência atual de criticar a posição disciplinar em defesa da posição de campo, sem que no entanto sejam tiradas as conseqüências de uma tal determinação. A noção de campo não é menos problemática que aquela de disciplina (12), mas a atribuição de um certo ranço positivista, que pesa sobre esta última, parece vir servindo de fiel da balança em favor da primeira.
Por outro lado, mesmo funcionando como um divisor de águas, as duas versões do cepticismo não escondem um certo acordo em relação ao ponto de partida comum, e se reconciliam frente às evidências da fraca estruturação da área. Seja como campo ou como disciplina, a Comunicação tem, incontestavelmente, graves dificuldades de definição, apontadas aqui e ali por seus mais renomados pesquisadores; dificuldades que, em suma, não podem passar desapercebidas aos olhos de todo e qualquer investigador mais sério que se debruça sobre a análise dos fenômenos comunicacionais.
Com efeito, a dificuldade de delimitar com precisão o domínio de estudos da Comunicação parece ser o centro sobre o qual gira a problemática da epistemologia dessa área. As razões para isto são de ordem diversa. Elas se encontram presentes na própria origem da problematização da comunicação no século XX, cuja variedade de abordagens abarca dimensões que vão desde a natureza do processo (13), até a diversidade das correntes de pensamento, com suas diferentes escolas e modos de problematização, passando pela sobreposição com outras problemáticas, melhor definidas e que contam com tradições de pesquisa estabelecidas em disciplinas já consolidadas (transmissão da cultura, formação de subjetividade, dinâmica dos processos sociais, processos intersubjetivos...), sem falar, é claro, dos problemas políticos e de interesses diversos relativos à divisão dos saberes e sua institucionalização.
Uma tal complexidade não pode deixar de se refletir sobre o campo, cuja baixa definição é conseqüência direta da dificuldade de sistematização dos conhecimentos produzidos. Como se não bastasse, a própria identificação do problema da inconsistência do objeto ou da dispersão do campo, parece contribuir, à sua maneira, para o estado confuso da questão. Como nos adverte Miège,
(...) há vinte e cinco anos

Publicado por margarida aires martins às maio 10, 2007 07:19 PM

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