« MARKETING POLÍTICO 4 | Entrada | »

abril 25, 2007

MARKETING POLÍTICO 5

"Os ministérios transformaram-se em agências de publicidade que não agem" (Entrevista a Luc Ferry, filósofo francês"

Esteve no Porto, a convite de Rui Rio, para participar na cerimónia do 5.º aniversário da chegada ao poder do autarca. Falou da crise da democracia e apontou a globalização como responsável pelo esvaziamento do poder dos políticos. Defende novos valores centrados na família e considera Ségolène Royal e Nicolas Sarkozy os primeiros políticos e falar aos franceses, atribuindo-lhes uma revolução da vida privada. Alertou para a catástrofe que seria deixar a Turquia fora da UE.
Tem reflectido muito sobre o futuro da democracia. Quais são as ameaças ao sistema democrático?

A principal ameaça à democracia é ela própria. Hoje, as autoridades políticas não têm poder suficiente para fazer as mudanças, as pessoas não sabem, mas a verdade é que a globalização veio transformar muita coisa. Muitas das prerrogativas que pertenciam aos políticos são hoje exteriores à sua competência de políticos.•
Quais?

A Internet, os mercados financeiros, as deslocalizações. Tudo isso enfraquece o poder político a nível nacional.•
Os políticos perderam o poder?

A globalização não é um problema Norte/Sul, de os mais ricos ficarem mais ricos e os mais pobres mais pobres. O verdadeiro problema é que ela retira poder aos homens políticos de cada nação. Os mercados financeiros vieram retirar poder ao ministro da Economia português e ao francês também. A democracia prometeu-nos que iríamos fazer a nossa própria história, mas muito do que se decide é exterior à esfera nacional.•
O poder dos políticos não é real?

O que lhes confere algum poder é a mediatização. Os ministérios transformaram-se em agências de publicidade que não agem, fazem comunicação. O essencial da guerra do poder político é ter uma boa imagem.

Apenas imagem?

A verdade é que os políticos passam 99 % do tempo nos ministérios a bater-se pela imagem e só 1% a mudar a realidade. A mundialização retirou poder e a mediatização extrema transformou os ministérios em agências de publicidade.•
Como já disse várias vezes, os políticos têm de ser populares para ser eleitos e depois não conseguem ser impopulares para fazer as reformas...

Sim, são como as pessoas que vão tomar banho no mar. Vão entrando devagarinho. Se a água está fria, recuam e voltam a entrar. Começam a fazer reformas na saúde, na educação... Quando as manifestações começam, fazem um recuo.

As pessoas percebem. Isso afasta-as da política?

Não gostam. Se compararmos o que se passa agora com a década de 30, na Europa, dizia-se que os políticos são uns mentirosos, não cumprem o que prometem, metem dinheiro ao bolso...

Voltamos a esse estado de espírito?

Não, não é a mesma coisa. Mesmo quando os políticos são boas pessoas, honestos, não têm poder para agir.

A sua experiência de dois anos como ministro diz-lhe isso?
Quando aceitei o cargo não percebi o essencial: não estamos no cavalo para ir a algum lado. É uma espécie de rodeo. Estamos no cavalo para nos mantermos em cima dele.

Qual é a solução?

É a Europa poder reflectir sobre os valores. É preciso ser popular para ser eleito e impopular para governar. É como ir ao dentista. Ele é simpático, mas vai tirar-nos um dente a seguir. É preciso que as pessoas percebam que estamos a fazer coisas desagradáveis, mas estamos a fazê-las por elas.•
Que valores são esses?

Já ninguém dá a vida pela Pátria, por Deus e pela Revolução. Conhece alguém que dê a vida por estes valores hoje na Europa? Os grandes valores são aquelas que tocam aqueles que mais amamos, os valores da família. O sagrado continua a existir. Mas encarnou na humanidade, todos os movimentos humanitários e caritativos nasceram da história da família moderna, a que surgiu no século XVIII e conquistou o casamento por amor. No Antigo Regime, o casamento apenas seguia a necessidade económica de manter as terras ou a linhagem. A família moderna baseia-se no amor.

Passamos para a esfera privada?•
Sim, o político tem de explicar que faz as reformas, que aumenta o número de anos de serviço para que nós e os nossos filhos tenhamos reformas.

Nessa perspectiva da família, Ségolène Royal vai à frente?

Sim. Mas Sarkozy também é muito bom. Eles são os primeiros políticos em França a saber falar aos franceses. Dizem "faço isto por vós". Não falam da Pátria, da República. Dizem-lhes que "os distúrbios nos subúrbios acontecem porque os vossos filhos não têm emprego". São dois políticos modernos. São os primeiros a encarnar esta revolução da vida privada.

Uma verdadeira revolução?

Tudo novo. Na verdade, martirizámos as pessoas em nome da República, da Revolução. Olhe a Segunda Guerra Mundial, quantos morreram? Em nome de quê morreram essas pessoas? Do nacionalismo.

Estamos perante um novo paradigma?

Sim, claro. A política é destinada a servir a vida privada. Não são os cidadãos que estão aqui para servir o Estado, é o Estado que existe para servir as pessoas.

Publicado por margarida aires martins às abril 25, 2007 05:18 PM

Comentários